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IDEOLOGIA - Um Ensaio Resumido

Prof. André Barros 1998

1-INTRODUÇÃO

DEMO (1989:18-9), inicia sua DISCUSSÃO sobre o que é "ciência", advertindo que melhor seria dizer o que ela não É. A razão dessa proposição pode ser claramente visualizada porque não são nítidos os limites que a separam do "senso comum" e da "ideologia".

Ao que interessa neste trabalho, o senso comum seria aquele conhecimento simples do homem da rua, do pequeno agricultor, do pescador artesanal, etc ...

Esses conhecimentos, apesar de sua pouca profundidade possuem um lado muito positivo reconhecido como bom senso, ou seja é o saber simples. inteligente e sensível ao óbvio. O exemplo - do pescador que varia o tamanho dos furos de sua rede de pesca, porque é época de tal peixe. ou ainda, do agricultor que sabe o mês exato para plantar tal coisa - seria indicativo de que nessas situações houve apenas o uso do bom senso.

Já a ideologia difere-se basicamente do senso comum por seu caráter tendencioso, isto é, enquanto este encara a realidade como ela parece ser, aquela a visualiza como gostaria que fosse, a partir dos seus proveitos, das vantagens que pode adquirir.

A ideologia é um processo que vem sempre associado a outro - o poder, ou como expressa DEMO (1989:19).

"... Ideologia é compreendida como sombra inevitável do fenômeno do poder, que dela lança mão para se justificar".

Poder sagaz não diz que é poder, que deseja dominar, que busca vassalos, que detesta contestação. Diz que é Participação, desígnio de Deus, mérito histórico, boa intenção a favor dos fracos. (grifo nosso)

 

E continua afirmando, agora apoiado em GRAMSCI (1972), que o pior é a ideologia disfarçar-se em ciência, ajudada por um arquétipo - o intelectual, que também pode negá-la quando cria a contra-ideologia, no objetivo de derrubar as estruturas vigentes, para auxiliar outra casta a assumir o poder.

Mais adiante completa suas considerações (Ideológicas) sobre a ideologia asseverando que berço preferido desta são as ciências sociais, por sua tendência (Histórica) de servirem de suporte ao poder dominante.

2 - De Volta ao Passado

Para os gregos a idéia de movimento significava "mudança" - qualquer alteração de uma realidade, podendo esta acontecer em quatro formas distintas:

A primeira, qualitativa, acontecia, por exemplo, quando uma semente transformava-se em uma árvore.

A segunda, quantitativa, em razão do aumento de volume de um corpo - a preamar, ou quando qualquer outro se dividia - um bloco de gelo que se quebra.

A terceira, de lugar - na ocorrência de uma avalanche ou mesmo, quando uma pessoa se desloca de onde estava antes.

A quarta, quando havia a geração ou corrupção de um corpo, significando, por exemplo, a primeira, seu nascimento e a segunda, sua morte.

Com base nessas proposições, Mistóteles, criou a "Teoria das Quatro Causas" que vigiu até o século XVII, como "científica". Era seu propósito explicar que diferentes relações entre as causas abaixo referidas, poderiam explicar tudo que existe ou se altera, o modo como existe ou se altera e ainda o motivo porque existe ou se altera.

Preconizava essa teoria que, na natureza, existiam quatro causas fundamentais:

A primeira, a material, que seria a matéria bruta existente num corpo disforme.

A segunda, a formal ou seja a forma que poderia ser dada à amorfia dessa matéria.

A terceira, a ação ou operação necessárias à criação de uma configuração para essa matéria.

A quarta. a final, seria o motivo, razão. ou propósito que teria a forma dada na matéria pela ação ou operação executadas.

Um exemplo desta teoria poderia ser dado pela fabricação de uma mesa de pedra para servir de altar, ou seja, sobre a pedra bruta - a matéria, seria desenvolvido um trabalho, para dar-lhe uma forma de mesa, no objetivo que essa servisse como um altar.

Até aqui parece que esta seria apenas uma teoria como dezenas de outras feitas ao tempo desse filósofo. No entanto, ele também propôs que as causas obedeciam a uma hierarquia onde a primeira, na ordem de importância, era a causa final, a segunda, no mesmo arranjo, a causa material, a terceira, a causa formal e a última, a menos importante, a causa eficiente.

Por que a causa final é a mais importante que as outras? A razão dessa proposição parece estar vinculada à idéia do uso, que. por sua vez, depende da vontade de quem ordena a produção, no caso, o cidadão(1) - o senhor. O outro motivo assemelha advir de que a causa eficiente compete ao escravo, "coisa" que fará o trabalho para dar uma forma em alguma outra coisa. com o propósito de servir para o uso do senhor, em outros termos, a referida mesa existe. apenas porque o cidadão assim o determinou.

Destarte, de forma voluntária ou involuntária(2) o filósofo julgou produzir uma teoria verdadeira, completamente desvinculada de sua realidade social, que serviria para explicar o funcionamento da sociedade em que vivia. Mas, como uma teoria poderia explicar a realidade e suas transformações se o teórico estava completamente vinculado a essa realidade, por isso mesmo sem poder ser neutro em relação a ela? Na verdade, essa possibilidade somente poderia existir se ele fosse um ermitão ou um selvagem que nunca tivesse contatado qualquer outro ser humano, vez que aí existira a oportunidade de um contagio'. podendo envolver valores, que compartilhados. jogariam por terra a possibilidade de neutralidade.

Nesse diapasão, o que deve ter havido com Aristóteles, foi transpor para o plano das idéias, a realidade social em que vivia, com isso confirmando um suporte "científico", para o sistema escravagista grego, agora plenamente justificado, pela nenhuma importância dada à causa eficiente, a última na hierarquia. Esse é o traço fundamental da ideologia, isto é, tomar as idéias como independentes na realidade social, fazendo aquelas explicarem essa, de uma forma vantajosa.

De que lado estaria a verdade? Afigura-se mais lógico o fato de que as relações sociais é que explicariam as idéias, vez que, caso ocorresse o contrário. essas idéias teriam. para obedecer o critério de cientificidade (neutralidade) de serem produzidas por uma raça que não fosse humana e. além disso. que jamais tivesse acontecido proximidade com a realidade social explicada. antes do momento de explicá-la.

 

3 - No Rumo do Presente

O século XVIII é marcado por dois fatos que provocariam uma verdadeira revolução na humanidade. O primeiro deles é o nascimento de René Descartes. o segundo, derivado deste, é o fim das explicações antropomórficas sobre a natureza. onde o homem é o centro de tudo e, ao mesmo tempo padrão para tudo esclarecer - surge a física como ciência apoiada na matemática separa-se a ciência da filosofia. O conhecimento agora é fruto da máxima utilização dos sentidos e da racionalidade - esta aliás, a única base para o conhecimento anterior.

As quatro causas são reduzidas a duas - a eficiente e a final:

A primeira diz respeito à natureza, ao reino da pura necessidade mecânica, às relações de causa e efeito, onde inexistem causas finais e tudo é formado por leis necessárias mas impessoais.

A segunda, passa a possuir dois senhores - o Divino e o Humano, com o atributo maior de terem uma ação voluntária e livre, ou seja, agem tendo em vista objetivos: É o reino da finalidade e da liberdade.

Isso gerou conseqüências antes imprevisíveis. O homem passou a coexistir com as duas causas. A eficiente, através do seu corpo, governado por leis mecânicas, porém, a liberdade humana faz com que essa causalidade eficiente obedeça aos objetivos prescritos pelo homem. Ora, na natureza não há hierarquia de seres e causas, no homem, entretanto, essa hierarquia existe, vez que o espírito é superior ao corpo sendo este (causa eficiente) apenas um subordinado daquele. Em resumo, o homem se caracteriza pela união de um corpo mecânico com urna vontade finalista, cuja manifestação máxima é o trabalho(3).

Como foi possível passar o trabalho de desqualificado (a teoria das quatro causas) para qualificado (a teoria das duas causas)? A resposta está intrínseca na troca dos sistemas, do escravagista para o capitalista. onde o homem valoriza-se por si mesmo pelo seu esforço pessoal, por sua capacidade de trabalho e poupança, tendo como recompensa a posse do poder econômico que redunda no exercício do poder político, juntos expressando o domínio do poder social.

A nova sociedade valoriza o trabalho por que ele representa a unidade do corpo (natureza) com o espírito (vontade livre). Daí, entretanto surge um problema: Todos os homens serão livres para trabalhar? Supõe-se que não. Esta sociedade é composta por dois tipos de homens: Os proprietários e os não proprietários. Os primeiros possuem o capital e através dele os meios sociais de vida e produção, isto é, são a expressão de uma vontade livre dotada de objetivos próprios. Os segundos, não são meios de produção como os escravos o eram. porém, não possuem os meios de produção, fazem a relação do seu corpo com outras máquinas sem vida, são apenas um meio para fins determinados por outros.

4 - No Passado e no Presente

Juntando-se as proposições adrede colocadas, intenciona-se dizer que idéias, parecendo resultar de conceitos nascidos da observação científica, por isso mesmo sem qualquer dependência com as condições sociais, na verdade são expressões destas condições, porém. de modo invertido e dissimulado. Com tais idéias pretende-se explicar a realidade, sem se perceber que são elas que precisam ser explicadas pela realidade.

Mas, o que é o real ? Nossa experiência direta e imediata da realidade nos faz imaginar que o real é feito de coisas. objetos físicos, psíquicos e culturais. No entanto o real é muito maior, vez que ele é feito de coisas mais a significação delas. Examine-se por exemplo uma montanha, ela é uma coisa, mas, além disso, ela é, sobretudo, um significado; para os gregos, era a morada dos deuses, para uma empresa é um local que possui riqueza de minérios, ou uma atração turística, para um operário é o seu local de trabalho, para um soldado pode ser um campo de combate, para um geólogo é uma formação rochosa, para um pintor ela é forma, cor, volume, linhas a serem retratadas.

Ora, se as coisas são reais para nós, apenas na medida que têm um sentido para nós. isso significa que elas não são só coisas, mas coisas para nós. talvez. daí possa-se inferir que o real são nossas relações com a natureza e entre nós mesmos que somados representam nossa cultura, que não é urna. vez que seus campos de significação são variáveis no tempo e no espaço, dependentes de nossa sociedade, nossa classe social, do nosso status e dos nossos papéis.

Se isso é aceito como verdade. então o real é a mescla do empirismo, que é um dado de sentido, com o idealismo, que é um dado de consciência, na exata medida de seus significados.

O primeiro, referindo-se a fatos ou coisas observáveis (factuais), onde o conhecimento da realidade se reduz à experiência sensorial dos objetos, cujas sensações se associam e formam idéias na mente.

O segundo, propendendo a ser as próprias idéias ou representações dos fatos ou coisas, onde o conhecimento da realidade se reduz ao exame de dados e operações da consciência, ou do intelecto, como atividade produtora de idéias que irão dar sentido ao real e o fazer existir para nós.

O exame dessas assertivas, assemelham levar à conclusão que o real é sobretudo um processo, um movimento incessante, pelo qual os homens instauram um modo de sociabilidade e procuram fixá-lo através das instituições(4) família, trabalho (organizações), religião, política, (partidos), educação, arte, costumes, língua para, a partir daí, produzir idéias para explicar e compreender suas vidas individuais e sociais, suas relações com a natureza e até com o sobrenatural.

Ao considerar o social como o produto das relações dos homens entre si e destes com a natureza, aspira-se dizer que o real seria composto destas relações mais a ação dos homens e o produto dessa ação.

Qual seria então o problema? A dificuldade de expressar o real é que existe uma constante tendência de esconder a origem das formas sociais que o produziram, no intuito de legitimar condições sociais que interessam sobretudo á elite que o criou. Assim o injusto, agora legitimado, passa a ser justo e a mentira, verdade, sem que os homens, principalmente os que não pertencem ao ápice da elite, o percebam.

Foi assim com a teoria das quatro causas e, da mesma forma, com a das duas causas. Na primeira' onde a espoliação escravagista estava plenamente justificada.

Na segunda onde a legitimidade da propriedade dos bens de produção, também o é, onde os cortes de custos, no objetivo de priorizar a eficiência econômica, sempre recaem sobre os recursos humanos, costumeiramente disponíveis em larga escala.

Volta-se a Hobbes agora para inquirir: Realmente não é possível conciliar tudo via educação? Hoje, esta é um processo massificado, onde o status quo dissemina as inverdades que quiser sem fornecer, por outro lado, os meios para que as populações possam fazer julgamentos a seu respeito e principalmente. de suas intenções.

 (1) Mais ou menos á época de Aristóteles, Atenas, a capital grega, possuía vinte mil habitantes, sendo que apenas 500 desses eram considerados cidadãos. com o direito, por exemplo. de votar e ser votado, na democracia formada por eles. Os restantes dezenove mil e quinhentos, ou eram mulheres ou escravos - cheios de deveres mas sem direito algum. a não ser o de ser o de servir aos cidadãos.

(2) Prefere-se essa última assertiva, vez que o criador da teoria é considerado como o pai da ética.

(3) Não esquecer que das 24 horas do dia. apenas 16 são realmente produtivas. vez que 8 são gastas no sono. Dessas, 8 são gastas no trabalho. das restantes, tem-se de distribuí-las entre lazer, estudo, satisfação de necessidades sociais e fisiológicas e tudo o mais.

(4) Um tipo especial de organização que consegue fazer com que a sociedade incorpore os valores constantes nos seus objetivos, como se fossem dela (sociedade).